
O ano lectivo que agora se inicia inaugura um novo formato na gestão na escola pública. Neste novo modelo o Professor António Cunha assume uma responsabilidade acrescida, por ter sido eleito, no passado mês de Maio, Director do Agrupamento de Escolas de Canas de Senhorim. Que alterações substanciais traz este novo formato de gestão face ao anterior Conselho Executivo?
Este modelo, em termos de gestão, centraliza a escola na figura do Director. Na nova gestão, o Director pode nomear (e exonerar dos respectivos cargos) Coordenadores para todas as áreas e departamentos, incluindo a Direcção Executiva, a partir da sua escolha pessoal, sem que as mesmas resultem de consensos alargados, como no anterior modelo. Isso aumenta tremendamente a sua responsabilidade pessoal em todo o funcionamento escolar, já que se as escolhas são pessoais, a responsabilidade pelas mesmas também o são.
O novo modelo pode igualmente ser um pau de 2 bicos - Como as novas formas de decisão favorecem escolhas autocráticas (que podem ser pouco democráticas), se se “distrair”, o Director pode ficar “isolado” na própria instituição que dirige, como muitas vezes acontece com os governantes nacionais. Continua a ser – sempre – essencial procurar compreender os pontos de vista dos restantes elementos da comunidade, construir decisões e projectos em conjunto e procurar, dentro do agrupamento, consensos o mais alargados possíveis.
Que expectativas tem para este novo ano escolar? Quais as metas que, enquanto Director, pretende ver cumpridas?
Uma grande meta é trazer a serenidade ao funcionamento escolar. Nos últimos anos a produção legislativa tem sido imensa, a modificação de práticas e formas de funcionamento tem trazido grande agitação, insegurança e até desconfiança dos agentes educativos e até do exterior em relação à escola. Uma grande prioridade é, pois, serenar este funcionamento e devolver o “foco” da atenção para onde ele deve estar – na relação educativa entre professores e alunos e na aprendizagem e resultados destes.
Outra prioridade, que já se iniciou, tem a ver com a execução do projecto PTE (Projecto Tecnológico para a Educação), que inclui videoprojectores e computadores em todas as salas de aula (a partir do 2ºCEB), fibra óptica, quadros interactivos, entre outros. O grande desafio é a mudança de algumas práticas para as novas tecnologias, que, quer se goste ou não, deixaram de poder ser vistas como uma miragem do futuro – elas são o presente, estão em todo o lado e não podem ser contornáveis. A escola tem de ser a primeira a enfrentar este desafio e a procurar tirar o maior partido delas.
Que papel pensa poder vir a ter o Conselho Geral no Agrupamento que lidera? Acredita que este órgão terá “escala” para funcionar como foi pensado ou, pelo contrário, estará muito dependente da “máquina” da escola? Que experiências já nos pode relatar?
Os Conselhos Gerais têm sempre um papel muito relevante – basta dizer que eles são os únicos responsáveis pelas escolhas para Director, bem como pela sua possível renomeação ou exoneração, e pelas grandes decisões relativos à vida escolar (aprovação das contas e projectos, entre outros). No entanto, sendo órgãos relativamente pequenos, podem também facilmente ser instrumentalizados e tomar decisões ou escolhas que não sejam no melhor interesse das escolas. Pessoalmente, acharia mais justo e transparente que o Director fosse eleito por toda a comunidade escolar, como acontecia antes.
Relativamente ao Conselho Geral deste agrupamento, ele ainda não está completamente formado – apenas existe o Conselho Geral Transitório, que é excelente, tem o meu maior respeito, penso que tem feito um excelente trabalho e que tem todas as condições para o continuar a fazer.
O ano transacto foi marcado por inusitada conflitualidade entre os professores e o Ministério da Educação, por questões relativas à avaliação e ao estatuto da carreira docente. Como acompanhou esta situação? Sentiu perturbações no normal desenvolvimento das actividades pedagógicas?
Era impossível não sentir essa perturbação… essa conflitualidade tornou-se latente, acompanhou a acção educativa e aumentou a crispação nas pessoas enquanto pessoas e enquanto professores. Muitas vezes acredito que essa crispação tenha resvalado para as casas e vida particular dos professores, ingerindo-se, involuntariamente, decerto, na sua própria vida pessoal. Uma lamentável evidência deste fenómeno foi o suicídio de um colega há poucas semanas, que deixou uma carta escrita onde relatou a sua experiencia sufocante de todo este processo, pedindo desculpa à família e aos amigos por não aguentar mais tal pressão. A Gestão duma escola/agrupamento, que por si já é um processo com grandes dificuldades, num ambiente destes, como se pode imaginar, fica bem mais complicada…
O nosso agrupamento passou um pouco ao lado deste processo mais dramático – como nenhum professor solicitou avaliação cientifico-pedagógica (isto é, aulas assistidas), a crispação foi bastante menor e praticamente inexistente (Não conheço mesmo nenhuma escola das imediações onde Todos os professores tenham recusado tal avaliação!!). Consequentemente, também ninguém teve mais de BOM (as aulas assistidas eram um pré-requisito para o Muito Bom ou Excelente) – o que também gera injustiças porque grande parte dos professores deste agrupamento são mesmo Muito Bons e Excelentes, não ficando atrás daqueles que levaram estas menções noutras escolas. Um dos padrões de verificação de tal afirmação são os próprios resultados dos exames nacionais, onde a nossa escola, teimosamente, costuma ficar nos primeiros lugares.
Como educador, e não como Director do Agrupamento, que opinião lhe merecem os polémicos Estatuto do Aluno e Regime Jurídico da Avaliação dos Professores?
Curiosamente, o actual Estatuto do Aluno pouco difere do anterior, que nunca deu qualquer brado. Isto porque lhe foram introduzidos 2 ou 3 pontos muito controversos, como os telemóveis em meio escolar o novo regime de faltas. (Note-se que o que diz respeito ao novo regime de faltas é também pouco claro e a sua interpretação é díspar, razão pela qual o diploma foi depois rectificado por outro normativo que pouca luz trouxe sobre o assunto). Este regime de faltas cria a figura das “provas de recuperação”, que a generalidade das escolas sempre fez e pode favorecer ou prejudicar o aluno (face ao anterior) dependendo da postura das escolas. Pode beneficiar porque “obriga” as escolas a fazer um plano e provas de recuperação ao aluno quando este falta. Pode prejudicar porque o aluno, se “chumbar” nessas provas pode vir a ser excluído da frequência escolar. Penso que as escolas, duma forma geral, procuram sempre ajudar o aluno.
Em relação à avaliação dos professores, a resposta não é fácil e a minha opinião como educador não difere da opinião de director. Criou-se, com esta discussão nacional, a ideia que os professores até aqui não eram avaliados, o que é errado, já que os professores tinham de frequentar acções de formação, obter créditos e cumprir uma série de pré-requisitos de avaliação – sem os quais não poderiam progredir.
No entanto, o novo modelo nada a tem a ver com o anterior (ao contrário do estatuto do aluno). É excessivamente burocrático e simplesmente impossível de pôr em prática. A carga burocrática, os papeis, grelhas e relatórios é de tal forma grande que sufoca tudo o resto, em termos de tempo e trabalho, tornando a avaliação na acção principal da escola e do professor quando a principal acção deve ser claramente a relação educativa professor - aluno. E este modelo foi lançado num clima de contestação, controvérsia e desconfiança, o que o matou à cabeça. Ora não se pode avaliar em clima de desconfiança – se avaliadores e avaliados não acreditarem e aceitarem os resultados, a avaliação será sempre reclamada e não será aceite. E se não for aceite, para que serve então? E é pena, porque este modelo tinha também uma ou outra virtude que permitiam enriquecer o anterior modelo, tornando-o mais completo e rigoroso.
Os próximos anos trazem um novo desafio para o Agrupamento de Escolas que dirige: o projecto do novo Centro Escolar. Neste momento há grandes incertezas sobre este assunto (financiamento e terrenos para a edificação). O que pode dizer à Comunidade sobre o projecto? O novo Centro escolar será uma realidade nos 4 anos do seu mandato? Já tem localização?
Essa questão terá de ser colocada à entidade responsável pelo projecto – a Câmara Municipal de Nelas
Acha que o concelho de Nelas tem alunos que justifiquem 3 centros escolares (Nelas, Canas e Senhorim)?
Acho que Canas precisa e muito rapidamente deste Centro Escolar, dotado de condições humanas e materiais (salas de aula, Biblioteca, refeitório, espaço para aulas de desporto, espaços exteriores, entre outros). Estamos (felizmente) a “rebentar” pelas costuras em termos de alunos – Só o freguesia de Canas tem mais de 150 alunos. No presente ano funciona, inclusive, uma turma de 1º ano nas instalações do Jardim de Infância Girassol, numa pronta disponibilidade que desde já se agradece ao Sr. Pare Nuno e restante direcção do Centro Paroquial. No entanto, esta solução não é a melhor em termos futuros e isola bastante os alunos relativamente aos seus pares, pelo que tal Centro Escolar é mesmo importante.
Sobre os outros 2 Centros penso que não me devo pronunciar, até porque não conheço bem a realidade escolar relativo aos mesmos e nem sequer o número de alunos.
Ao nível dos equipamentos escolares onde verifica, no Agrupamento (que reúne os jardins de infância, escolas do 1º ciclo, ensino básico e secundário) existirem as maiores carências?
Obviamente nas escolas de JI e 1º CEB, cuja responsabilidade material é das autarquias. Esse é praticamente um cenário nacional. Embora tenha havido um esforço recente de apetrechamento (e de embelezamento escolar, com pintura e arranjo dos espaços) por parte da autarquia e da nova equipa que a tem dirigido, esse esforço não consegue facilmente vencer um passado de isolamento e de dificuldades dessas mesmas escolas. Uma das grandes virtudes do novo Centro Escolar é equiparar as escolas destes níveis de ensino, de forma que aquelas deixem de ser o parente pobre, em termos materiais.
Nos últimos anos tem-se assistido a uma redução de alunos nas escolas, fruto do “Inverno” demográfico que estamos a viver. Ao que julgo saber, no presente ano lectivo teremos apenas 2 turmas de 5º ano, 2º Ciclo. Como vê a evolução futura do agrupamento, das suas infra-estruturas e também da profissão de Professor em face deste trajecto das matrículas no agrupamento?
Esse cenário vê-se com muita apreensão. O número de alunos do 5º ano condiciona completamente o futuro de uma escola de 3ºCiclo / Secundária. E actualmente a dimensão é uma condição de sobrevivência – é preciso ter dimensão para sobreviver. Daí esta escola fazer um esforço tremendo ao nível dos cursos CEF, Profissionais e Nocturnos, para conseguir ter dimensão. E a verdade é que tem resultado – anualmente a nossa escola / agrupamento, com os seus cursos, cativa e recebe alunos de todo o concelho e até de outros concelhos, com muitos alunos de Carregal do Sal e suas terras (Cabanas de Viriato, Oliveirinha, Oliveira do Conde, Azenha, Currelos). No presente ano, na entrega de diplomas aos alunos que concluíram o 12º Curso Profissional de Informática (em Setembro/09) mais de 30% dos alunos eram de fora.
Outro dos temas polémicos dos últimos anos foi os rankings das escolas, baseados nas classificações obtidas pelos alunos no Ensino Secundário. Na escola de Canas oscilámos de uma classificação muito boa nos primeiros anos para uma não tão conseguida nos últimos 2 anos lectivos. Qual a sua opinião sobre os rankings? Entende que de alguma forma os rankings tornaram as escolas mais “briosas” na forma como preparam os alunos para os exames nacionais? Vê a competição entre as escolas como algo de positivo?
Os rankings devem ser lidos de várias formas. Por exemplo, não é correcto comparar rankings de escolas publicas com escolas particulares, sem dizer que nestas as regras são feitas pela escola (e um aluno que tire maus resultados, isto é, que não se identifique com a “missão” do colégio, pode ser de imediato expulso), o nível sócio-económico, as expectativas escolares e as propinas são elevados, enfim… Nessas condições, embora acredite que esses colégios realizam um bom trabalho, não tenho quaisquer duvidas que estaríamos também no topo.
Em relação à nossa escola, durante cinco anos fomos, consecutivamente (!) a primeira escola secundária a nível distrital, em termos de resultados. A questão não é porque perdemos este 1º lugar (que é o mais natural) mas sim como o conseguimos manter tantos anos. De qualquer forma, mesmo nestes últimos anos, não ficámos tão mal assim – não ficámos foi em 1º. Tal como no presente ano, em que, consoante os jornais e o tipo de rankings, ficámos no 3º ou 4º lugar. E estes resultados, para uma escola pobre e periférica como a nossa, mostra acima de tudo bastante trabalho de professores e naturalmente de alunos que são quem, em ultima instância, consegue esses resultados.
De que forma as classificações nos rankings condicionaram ou irão condicionar a sua gestão do Agrupamento, nomeadamente no Secundário?
Não condicionam nem são arma de arremesso interno. Sempre houve uma ideia muito clara da exigência das turmas de nível secundário e dos professores que conseguem responder a essa exigência. Por exemplo, nenhuma disciplina de nível secundário fica por atribuir para professores de contratação posterior ao inicio das aulas, sempre que tal é possível.
Outra situação que preocupa os encarregados de educação é a violência nas escolas. Como tem lidado com o problema no Agrupamento, nomeadamente na EB 2,3/S Eng.º Dionísio Augusto Cunha? Tem tido situações relevantes/fora do controlo? Parecem-lhe necessárias alterações legais sobre esta matéria?
A questão da violência é preocupante – não a violência de gangs, de pistolas ou facas porque essa felizmente não a temos cá. Mas temos, à semelhança da generalidade das escolas, um problema muito preocupante: o não acatamento de regras. Os alunos não sabem obedecer, não estão habituados a obedecer. E esses sinais são visíveis nas escolas, como nas ruas ou no interior das casas, nas famílias. As crianças não são habituadas a cumprir regras, a ser contrariadas, o que é mau, primeiro para os educadores mas mais tarde para elas. Porque ficam com a ideia errada que a vida é fácil, que as coisas são fáceis de conseguir, que as regras não existem para eles mas apenas para os outros. E muitos pais debatem connosco (direcção) a agonia de ter filhos que não lhes obedecem e os afrontam, às vezes com violência.
Por outro lado, no tempo dos “cotas”, que é o tempo dos “jovens velhos”, víamos a Heidi, o Marco Polo, o Mickey e o Pateta, o Popeye, o Speedy Gonzalez, etc, que, sem serem uma pasmaceira aboluta, eram divertidos e incutiam até alguns valores. E brincávamos ao berlinde, ao pião, à corda. Actualmente os desenhos animados e jogos que entretêm as crianças são agressivos, cheios de tiros e pancadaria… E as crianças naturalmente brincam com aquilo que resulta da sua imaginação, que por sua vez é preenchida com esses jogos. Por isso, é normal ver uma criança a brincar com outra a arrumar-lhe com um pau ou um chapéu de chuva ou até à pedrada. Esta é violência de contexto escolar – nada que não sejamos nós mesmos a produzir para eles, em animadas séries televisivas.
Por último, e agradecendo a entrevista, e dado o importante papel que tem na nossa comunidade devido às funções que ocupa, queria pedir-lhe que deixasse uma mensagem aos leitores do Jornal “Canas de Senhorim”
Queria em primeiro lugar dar essa mensagem de felicitações ao jornal de Canas – que se tem constituído como um dos principais ou mesmo o principal veículo de informação de Canas, das suas gentes, dos seus méritos, das noticias que por cá acontecem. As pessoas que o lêem somos todos nós – professores, pais, funcionários (todos educadores) e alunos. E para todos nós o que eu desejo sinceramente é o melhor para Canas, no sentido de ser capaz de crescer com harmonia e equilíbrio, com qualidade de vida das pessoas (algumas obras recentes como a “simples”construção de passeios são sinais muito positivos) criar empregos, atrair pessoas para morar, de forma a manter dimensão- até porque a escola, por consequência, precisa dessa dimensão para sobreviver. E, a titulo pessoal, que possamos ser felizes, cada um à sua maneira.
































Prémio Figurantes:

Prémio Madre Teresa:








5ª Feira - 19 horas
...entrou Luis Almeida










